Texto que publiquei no Diário da Manhã de hoje
As prioridades de cada um
Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural
Tenho um amigo de infância que hoje é um biomédico bem sucedido no mercado goianiense, o Júnior, que disse algo certa vez que nunca mais me esqueci: todo mundo tem algo que para o outro é frescura. Estávamos nós, adolescentes entediados, conversando fiado em uma tarde de sábado na portaria do edifício onde morávamos. Eu o zoava por algum motivo que não faço a menor ideia: o penteado do cabelo; o fato dele não gostar de cebola; ele ter achado o clipe da Kate Bush legal. Não me recordo. E também não interessa. Era algo que eu havia pegado para tirar uma onda com a cara do Júnior. Ele, naturalmente, foi para a desforra e começou a curtir comigo também. Até que ele lapidou esse sábio pensamento que até hoje me acompanha.
No último domingo, eu estava no almoço de Dia dos Pais que anualmente minha família promove. Entre uma conversa e outra, um pedacinho de carne e outro, uma piadinha sobre o time de futebol que está mal das pernas e outra, eu chego com uma garrafa de vinho. Talvez se eu tivesse entrado com um travesti e anunciado que aquela era minha nova namorada o impacto teria sido menor. Foi tanta zoação para cima de mim que pensei em me esconder dentro da churrasqueira. Me encheram o saco de todas as formas imagináveis. E tenho parcela de responsabilidade nessa zoeira. Eu mudei muito meu comportamento e a galera não perdoou, é claro!
Sou um histórico defensor da culinária ogro. Pamonha frita na Feira Hippie? Coisa linda! Pastel da feira da Fama? Não nego! Espetinho na porta do Terminal da Praça da Bíblia? Clássico! Só que, de uns tempos para cá, percebi que não é só a culinária ogro que é prazerosa. Pratos requintados também têm seu valor, seu momento. Uma harmonização bem feita pode ser tão apetitosa quanto o sanduba do estacionamento do Serra Dourada. Como sei que meu tio capricha nas carnes vermelhas quando é churrasco de família (o que tempos atrás eu falava que era frescura, pois “toda carne assada fica gostosa” – eu dizia), levei um Malbec argentino timbradíssimo para harmonizar com a picanha. Repito: se eu tivesse anunciado meu casamento com um transexual a reação teria sido mais contida e menos histérica.
Nesse momento de achincalhamento público que vivi no último domingo, a sábia frase do meu amigo Júnior voltou à minha cabeça. Eu vendo meu primo me zoar com gelzinho no cabelo; não passo um pente na cabeça há mais de 10 anos. Eu vendo meu tio me avacalhar com relógio no braço que compra algumas arrobas de carne; eu não uso relógio desde a popularização do celular. Eu vendo minha prima rindo de mim com uma bolsa que de tão chique eu nem sei a marca; eu uso pochete. Tudo aquilo que eles usavam para mim era frescura. Meu vinho para eles era frescura. E todo mundo tem uma coisa que para o outro é frescura. Sábio, Júnior…
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