As prioridades de cada um

Texto que publiquei no Diário da Manhã de hoje

As prioridades de cada um

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Tenho um amigo de infância que hoje é um biomédico bem sucedido no mercado goianiense, o Júnior, que disse algo certa vez que nunca mais me esqueci: todo mundo tem algo que para o outro é frescura. Estávamos nós, adolescentes entediados, conversando fiado em uma tarde de sábado na portaria do edifício onde morávamos. Eu o zoava por algum motivo que não faço a menor ideia: o penteado do cabelo; o fato dele não gostar de cebola; ele ter achado o clipe da Kate Bush legal. Não me recordo. E também não interessa. Era algo que eu havia pegado para tirar uma onda com a cara do Júnior. Ele, naturalmente, foi para a desforra e começou a curtir comigo também. Até que ele lapidou esse sábio pensamento que até hoje me acompanha.

No último domingo, eu estava no almoço de Dia dos Pais que anualmente minha família promove. Entre uma conversa e outra, um pedacinho de carne e outro, uma piadinha sobre o time de futebol que está mal das pernas e outra, eu chego com uma garrafa de vinho. Talvez se eu tivesse entrado com um travesti e anunciado que aquela era minha nova namorada o impacto teria sido menor. Foi tanta zoação para cima de mim que pensei em me esconder dentro da churrasqueira. Me encheram o saco de todas as formas imagináveis. E tenho parcela de responsabilidade nessa zoeira. Eu mudei muito meu comportamento e a galera não perdoou, é claro!

Sou um histórico defensor da culinária ogro. Pamonha frita na Feira Hippie? Coisa linda! Pastel da feira da Fama? Não nego! Espetinho na porta do Terminal da Praça da Bíblia? Clássico! Só que, de uns tempos para cá, percebi que não é só a culinária ogro que é prazerosa. Pratos requintados também têm seu valor, seu momento. Uma harmonização bem feita pode ser tão apetitosa quanto o sanduba do estacionamento do Serra Dourada. Como sei que meu tio capricha nas carnes vermelhas quando é churrasco de família (o que tempos atrás eu falava que era frescura, pois “toda carne assada fica gostosa” – eu dizia), levei um Malbec argentino timbradíssimo para harmonizar com a picanha. Repito: se eu tivesse anunciado meu casamento com um transexual a reação teria sido mais contida e menos histérica.

Nesse momento de achincalhamento público que vivi no último domingo, a sábia frase do meu amigo Júnior voltou à minha cabeça. Eu vendo meu primo me zoar com gelzinho no cabelo; não passo um pente na cabeça há mais de 10 anos. Eu vendo meu tio me avacalhar com relógio no braço que compra algumas arrobas de carne; eu não uso relógio desde a popularização do celular. Eu vendo minha prima rindo de mim com uma bolsa que de tão chique eu nem sei a marca; eu uso pochete. Tudo aquilo que eles usavam para mim era frescura. Meu vinho para eles era frescura. E todo mundo tem uma coisa que para o outro é frescura. Sábio, Júnior…

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Na torcida por um belo Goiás e Vila

Artigo que publiquei hoje no Diário da Manhã.

Na torcida por um belo Goiás e Vila

Pablo Kossa é jornalista e produtor cultural

Não me recordo da primeira partida entre Goiás e Vila Nova que presenciei na vida. Vou ao estádio desde que era intra-uterino. Minha mãe, com aquele barrigão, ia acompanhar meu pai, esmeraldino doente, no Serra Dourada. Quando nasci, essa rotina não foi alterada. Ao invés do barrigão, era toda tralha do bebê que os acompanhava ao palco maior do futebol goiano. Logo, estar no estádio sempre foi meio que natural para mim. Como sou de 1979, começo a criar memória dos acontecimentos do futebol a partir de 1985 (o título do Coritiba contra o Bangu no Brasileirão) e 1986 (o título do Goiás em cima do Atlético no Goianão, a Copa e o traumático pênalti do Zico).

Nesse momento, o grande rival do Goiás era o Atlético. Esse era o time que eu temia. De 1985 à 1988, foram quatro decisões seguidas entre o esmeraldino e o dragão campineiro, com dois títulos para cada lado. O Vila Nova era para mim um gigante do passado. Para uma criança de 6, 7, 8 anos, qualquer coisa que tenha acontecido há mais de cinco anos é coisa de gente velha.

Só fui entender mesmo o apelo do Vila Nova em 1989. O time colorado montou uma grande equipe, com alguns jogadores de peso do futebol brasileiro em final de carreira, como o volante Rocha. Mas o principal nome, o que era comentado com raiva pelo meu pai, era o ídolo esmeraldino Luvanor que vestia naquele momento a camisa colorada. Num dia de semana de tarde, tinha um jogo do Vila pelo campeonato goiano no Estádio Olímpico. Meu avô Oswaldo, que é corintiano mas que quando chegou a Goiânia começou a ter simpatia pelo Vila, me levou junto do meu primo Guilherme para assistir essa partida. Não me lembro contra quem era o jogo e muito menos o placar. O velho e saudoso estádio, hoje um buraco que agride a memória do goianiense, estava lotado de camisas e bandeiras vermelhas. Chegamos atrasados e a bola já rolava. Vi de pertinho o Rocha, o Luvanor com a 10 do Vila, o zagueiro Vágner Bacharel que meu avô falava que tirava todas de cabeça. Ali entendi o amor da torcida do Vila pelo seu clube. E meu respeito cresceu.

A final do campeonato de 1989, advinhe só, foi entre Goiás e Vila Nova. Nesse momento entendi o que era o maior clássico do Centro-Oeste. A cidade inteira mobilizada. Só se falava nisso no colégio. Uma das partidas, assisti no Serra Dourada. Meu pai me levou junto do meu amigo de infância Marcos, que hoje mora no Setor Jaó, e foi um jogo histórico. O segundo da série, foi no meio de semana e não pude ir pois meu pai tinha compromisso de trabalho no jogo. Me lembro de ouvir pelo rádio a partida, deitado na cama dos meus pais, torcendo como nunca pelo Verdão. E o Goiás se sagrou campeão. Nesse momento também entendi o quanto era mais gostoso ganhar um título sobre um rival respeitado.

Depois disso, veio a hegemonia esmeraldina com o penta campeonato nos anos 1990. Mas o respeito pelo Vila Nova nunca diminuiu. Assisti vários clássicos, com vitórias e derrotas do meu time (inclusive aquela virada épica de 5×3, que talvez seja o maior triunfo vilanovense sobre o Goiás). Sempre são belos espetáculos mas que, nos últimos 15 ou 20 anos vêm sendo ofuscados pela violência. Vários amigos não vão mais em Goiás e Vila por medo das brigas. Eu mesmo fiquei alguns anos sem ir nesse jogo que marca o imaginário do Estado de Goiás.

Tomara que nesse jogo do próximo sábado a civilidade vença a barbárie. Que a inteligência policial funcione e consiga prever onde as brigas irão acontecer, já que todas são marcadas com antecedência pela internet. E que tenhamos um belo espetáculo de futebol em campo. É isso que todos que amam o futebol, como é o meu caso, esperamos.

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A profissão conforme o olhar

Artigo que publiquei no Diário da Manhã de hoje.

A profissão conforme o olhar

Pablo Kossa

A coisa mais engraçada do mundo é quando tentam adivinhar minha profissão segundo meu visual. Normalmente, são duas opções que a galera chuta: músico ou tatuador. E sempre dão com os burros n’água. Tenho envolvimento profissional com música, mas na função de produtor cultural, não de artista em si. Até tenho banda (a Chapéu, Cerveja e Frustrações – entra lá no nosso Myspace e saque o som, mas é por sua conta e risco, ok?), mas ela é um hobby que levamos a sério. Sobre ser tatuador, aí a coisa é mais séria. Tenho tatuagens espalhadas pelo corpo, mas sou um completo inábil para desenhar qualquer coisa. Se eu fizer um triângulo, você vai falar: “É, esse círculo está parecendo um retângulo…”. Desastre total!

Com meu visual, nunca acham que sou jornalista. Até por que no imaginário popular, a percepção que a maior da sociedade tem de um jornalista é de um cara como o William Bonner – o que é uma injustiça, por que, modéstia às favas, sou bem mais esbelto que o cara que apresenta o Jornal Nacional e acredita que o Homer Simpson é seu telespectador. O fato é que a maioria dos jornalistas não tem aquela cara de Bonner, mas, olhando sob outra perspectiva, também não tem a cara de Kossa. Cada um tem sua própria cara.

A questão que surge aqui é nossa carga imaginária que é criada sob determinadas profissões. A imagem que projetamos quando falamos de cada profissão é formada devido a tudo aquilo que relacionamos e fomos influenciados a pensar sobre aquela labuta diária do cara, normalmente por meio dos meios de comunicação de massa.
Jogador de futebol? Mulherengo, pagodeiro e meio burro nas entrevistas. Quando vemos algum jogador com a fineza e inteligência de um Sócrates ou Tostão, nossa cabeça entra em parafuso. Advogado? De terno e meio que falando coisas que você não entende direito e sempre fica com um pé atrás. Aí você encontra seu advogado em um show e o cara saca tudo de som, você não sabe mais o que fazer. Prostituta? Com roupas espalhafatosas, maquiagem excessiva e rodando a bolsa na esquina do Centro da cidade. Mas aí você fica sabendo que aquela sua amiga de faculdade que saca tudo das matérias, coloca seu nome nos trabalhos e lhe passa cola ganha a vida vendendo sexo, você perde o chão e não sabe onde pisar.

A real é que precisamos enquanto sociedade avançar da noção limitada de que determinados visuais são automaticamente estereótipos da atividade profissional do cara. Não dá mais para achar que cabeludo é tudo músico ou argentino. Muito menos que todo engravatado é gente séria – olha aí nossos políticos para provar o contrário. O que eu quero mesmo é saber se a pessoa é gente boa ou não. Como ela se veste, que tipo de ornamentos usa ou seu tipo de maquiagem são assuntos menores e secundários. Que dizem muito pouco mesmo sobre a essência real de cada um.

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Blog em novo endereço, agora n’A Redação

Após pouco mais de um ano nessa casa, o blog agora vai se mudar. Vamos para um lugar mais amplo, confortável e com uma dinâmica de atualização mais nervosa. A partir de hoje, você terá meus textos diários nesse endereço aqui:http://t.co/jvuLhqE

Me junto à equipe do primeiro jornal 100% virtual de Goiás, A Redação. Um projeto ousado, visionário e que vai se consolidar como a maior referência de jornalismo digital de Goiás. E digo isso com convicção. As pessoas envolvidas no projeto têm talento e experiência de sobra para isso. Quem viver, verá!

De vez em quando, ainda vou dar uma passada por aqui, mas será mais esporádico. O dia a dia de atualização, vai ser por lá!

Então, você já sabe! Para continuar me lendo, ficar informado com notícias de credibilidade e ler uma equipe de articulistas bala, entre no site d’A Redação. Coisa fina!

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Intelectual sem esforço

Texto de seis anos atrás, direto do túnel do tempo…

Intelectual sem esforço (São Google!)

Pablo Kossa

Eu sou de outros tempos. E olha que não sou tão velho assim! Faço 162 anos de idade em maio, mas com corpinho de 130. Disposição de 262 e mentalidade de 4. Cretinices de lado, a verdade é que o salto tecnológico que a internet proporcionou nos últimos anos foi realmente impressionante. De deixar um jovem adulto como eu dividido entre duas realidades próximas sob o aspecto temporal, mas com uma diferença abismal na lógica da dinâmica cotidiana.

Quando eu era menino, e, como já disse, não faz tanto tempo assim, o acesso à informação era coisa complicada. Para fazer um trabalho escolar, íamos à biblioteca e ficávamos copiando um monte de enciclopédias cheirando a mofo por horas. A professora dizia que deveríamos consultar pelo menos três fontes. Então, revezávamos as cópias: um capítulo de um livro, outro do segundo, o próximo do terceiro e assim por diante.

Com o advento da internet e as bênçãos de São Google, a coisa toda mudou de figura. Agora, é só digitar o tema desejado e chovem páginas e páginas na sua cara. Com animações, ilustrações, infográficos e detalhes mil que complementam a pesquisa. Tudo ao alcance das mãos e sem muito esforço.

Porém, o que era para ser um avanço extraordinário está se transformando em algo realmente medonho. Estamos criando uma geração convicta de que o mundo se resume ao Ctrl C e Ctrl V. Todo mundo sabe dar pitaco sobre qualquer coisa que se coloque, basta recorrer ao São Google.

Só que aquele velho ditado já estava certo: o que vem fácil, vai fácil. E não estou falando da Avestruz Master. Com a imensa disponibilidade de informações, não temos mais pessoas que tenham consistência sobre determinado assunto. Elas sabem das linhas gerais e superficialidades do tema, contudo não conseguem aprofundar nas particularidades que, invariavelmente, são mais interessantes. O verdadeiro diferencial da coisa. É o conhecimento fast food. Embalado, prático e fácil, mas sem as nuances proporcionadas ao paladar de um prato feito com o devido esmero. São os intelectuais sem esforço. Aquele que antes era chamado de “leitor de orelha”. Mas hoje, nem orelha de livro o cara lê mais. É só o que o São Google proporciona.

Uma vez li algo genial, mas não me lembro onde (deve ter sido na internet). Que o perfil do descolado contemporâneo mudou. Antes, era o cara ligado nas últimas tendências, que sabia os sons da última moda em Londres, discutia os assuntos palpitantes em Nova Iorque, usava roupas que estavam “hypadas” nos grandes centros… Enfim, o cara deveria ser um caldeirão de informações novas para ser um descolado.

Com a internet, ficou fácil ser esse cara. Basta alguns cliques que você tem tudo isso dentro do seu quarto. A partir daí, o descolado de hoje é aquele cara que não sabe de nada, não se importa com isso e está satisfeito com as informações que ele absorve pelos meios tradicionais. Royksopp? Ele não faz idéia do que seja. Duke Spirit? Para ele é o Patolino na macumbaria. E o cara está feliz assim.

E pode ter certeza que ele é mais legal do que o petulante descolado dos dias de hoje. Não tenha dúvidas disso!

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Fico esperto com quem me adula demais

Texto que publiquei hoje no Diário da Manhã.

Fico esperto com quem me adula demais

Pablo Kossa

Tenho um grande amigo que se chama Peixe. O nome dele, na verdade, é Daniel. Biomédico e atual estudante de Direito, Peixe é um daqueles caras que é bom de verdade. Coração bom mesmo. 100% bom. No meio de nossa galera, quando queremos dizer que alguém se esforça muito em agradar, está com uma postura Peixe. Quando é aquele afago sincero, generoso e genuíno, a pessoa está em um timbre Peixe. O fato é que o Peixe é uma grata exceção. Raríssima. Pois a real é que a maioria das pessoas que chega com muito mimimi perto de você, na verdade, quer algo inominável. O desejo escuso é o que a move.

Tenho 37 pés atrás com gente que só liga para se mostrar zeloso com minha pessoa. Amigo de verdade telefona para algum dos seguintes motivos: 1- pedir um favor que você faz de bom grado, com um sorriso que conecta as duas orelhas; 2- chamar para tomar uma; 3- colocar o papo em dia. Fora isso, é muito difícil receber ligações de amigos. Muita dúvida paira sobre minha cabeça quando alguém entra em contato para se dizer preocupado com algo que estão falando a meu respeito. Na verdade, o que interessa de verdade para essa pessoa é que a informação chegue até a você. Na boa: tem informação que é melhor nem chegar até você, concorda?

Outro ponto que me causa certo estranhar é quem não goza de grande intimidade comigo e vem discutir coisas da minha rotina particular. Tipo a escola onde minha estuda. Ou o carro que tenho. Ou o vinho que escolhi para acompanhar uma carne no restaurante. Ou o som que eu estava ouvindo no domingo de manhã. Você pira que tem gente na rua que chega para discutir esse tipo de assunto como se fosse amigo de infância? Tudo bem que a publicização da vida privada adquiriu graus incomparáveis com o restante da história nesses nossos tempos de hoje com redes sociais e o diabo a quatro, mas tudo na vida tem limite. Só que o limite é variável conforme o bom senso do indivíduo. E bom senso, sinceramente, é algo que está em falta no mercado…

O bom senso é algo tão valioso, mas tão valioso, que se ele fosse regra nem precisávamos ter leis para viver em sociedade. Bastava o cara ter bom senso. Tipo: “essa grana não é minha, é pública, não vou mexer com ela”. Ou então: “tudo bem, esse cara pegou minha mulher, mas é por isso que existe o divórcio, não é mesmo?”. Ahan, Pablo, senta lá… Bom senso deveria ser instituído como matéria básica das escolas públicas e privadas. Isso sim traria alguma mudança futura para nosso País. E não questões menores como a reprodução das algas ou o zero absoluto na escala Kelvin.

Por isso, toda vez que alguém chega cheio de confete para cima de mim, uso de um antigo estratagema que desenvolvi na adolescência: tento me lembrar das coisas que tenho para fazer no restante do dia, da semana, do mês – variando conforme o tempo da abordagem. Afinal de contas, tempo vale ouro e não posso desperdiçar o meu com esse tipo de groselha.

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Um admirável mundo novo que se abre

Escrevi esse texto para a última edição da Revista Zelo. Saca aí o que eu disse:

Um admirável mundo novo que se abre

Pablo Kossa

Uma de minhas criações: lombo ao molho de laranja com damasco

Tenho até vergonha de dizer isso, mas arrumei um novo vício. Brinco que vícios são coisas que você arranja até 18 anos. Depois disso, cair na adicção é muita burrice. Pois é, eu nunca disse que era um cara dos mais espertos… A minha mais nova droga se chama gastronomia. Ando fascinado com esse universo que se abriu, das comidas, dos temperos, dos lugares e, é claro, das bebidas.

Comecei de leve, como em todo e qualquer vício. Um vinhozinho aqui, uma harmonizaçãozinha ali, uma cervejinha gourmet acolá. E leva a esposa para um restaurante mais legal em um dia, e lê a coluna de gastronomia no jornal em outro, e entra em um blog especializado na semana seguinte – quando você percebe, já está perguntando para sua mãe o que ela vai servir no almoço de domingo para levar a bebida certa para acompanhar tal prato.

O difícil é aguentar o aluguel geral na orelha quando você fala tal comida seria melhor para determinada ocasião por conta da cerveja que estamos bebendo. Logo eu, um histórico defensor da gastronomia ogro, é demais. Mas acredito que cada coisa tem sua hora. No Serra Dourada, não abro mão do sanduíche dos ambulantes na entrada e da batatinha pingando óleo durante o jogo. No restaurante, naturalmente, a demanda é outra.

A gastronomia se abriu para mim como a música na adolescência. Um verdadeiro mundo novo. Quando eu comecei a me ligar em música, ler sobre música, me interessar sobre música, não tínhamos internet em qualquer esquina como hoje. Na verdade, não tínhamos internet. Então, quando eu lia uma matéria sobre, digamos, o Lou Reed, eu tinha que me esforçar horrores para imaginar como seria aquele som. Para ter acesso àquela música, eu tinha só três alternativas: comprar o disco (muito pouco provável para um adolescente de classe média baixa que eu era), pegar emprestado com um amigo e gravar uma fitinha cassete (o que acontecia com mais frequência) ou ouvir no rádio (o que rolava em nível médio). Fora isso, era só a imaginação. Atualmente, a internet acabou com essa relação. Qualquer moleque de 14 anos entra no Youtube e tem acesso a qualquer pérola da história da música. São outros tempos.

Com a gastronomia, não há internet que salve. O paladar é um sentido que exige o contato para você entender o que está sendo dito. E você precisa ter acesso àquela bebida ou comida. Ou seja, é igual o que rolou com a música na minha adolescência. Outro ponto é o talento de quem redige o texto. Ando respeitando os jornalistas que escrevem sobre gastronomia. É uma arte sem tamanho descrever em palavras aquilo que o paladar sente. Por exemplo, tente detalhar um sabor que quase todo mundo conhece, tipo chocolate, para alguém que nunca comeu o doce na vida. É preciso ter uma baita repertório e conhecimento para fazer isso com propriedade. Minha admiração pelos colegas especializados em gastronomia cresceu em ritmo frenético.

Sei que meus vícios são longos, duradouros e obsessivos. Acho que a gastronomia vai me acompanhar por um longo tempo. Se a música está literalmente tatuada em minha pele, fico imaginando onde não pode chegar essa nova dependência. Pensando bem, é melhor nem pensar muito não. É simplesmente imprevisível tal relação.

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Dez jogadores mais groselha da história da Seleção Brasileira

Ontem, almocei na casa do meu amigo Vitão, lá no Setor Jaó, e encaramos uma jornada futebolística canarinho dupla: o jogo da seleção brasielira feminina contra a Noruega pela Copa do Mundo e o da masculina contra a Venezuela. A partida das garotas foi bem mais divertida que a dos homens, nem precisava dizer! Aquela Marta joga demais. E as norueguesas têm virtudes que, digamos, vão além da bola… Ao ver aquele sofrimento da equipe masculina contra o time de Hugo Chávez, percebi que nosso ataque é uma groselha só. Pato? Groselha. Robinho? Groselha. Fred? Groselhíssima! O mais superestimado de todos. Com tanta groselha em campo, fiquei instigado a listar os 10 jogadores mais groselha da história do escrete canarinho.

O critério é só um: minha memória. Ou seja, é sempre um péssimo referencial, pois não me lembro nem do meu RG. Então, caso queira me ajudar com mais jogadores groselha, mande ver nervoso aí nos comentários, certo? Além disso, vai rolar uma prioridade de 1986 para cá, que é quando começa minha memória futebolística. Novamente, se quiser contribuir daí para trás, será super bem recebido por aqui!

1- Ditão

Ditão

Imagine alguém ser convocado por engano? Pois é, foi isso que aconteceu com o Ditão na Copa do Mundo de 1966. O técnico Vicente Feola queria levar o Ditão do Corinthians, símbolo da garra da Fiel. Por um erro de datilografia da secretária da CBD, foi enviado o nome de seu irmão, o Ditão do Flamengo. Para não mostrar o quão tosco era o serviço de nossa Confederação (veja você que isso não é de hoje), mandaram para a Copa o do Flamengo mesmo. Groselha pura!

2- Jorge Mendonça

Jorge Mendonça

Imagine você ficar aquecendo por 31 minutos e entrar para jogar somente quando faltam 7 minutos para o fim da partida? Pois é, foi isso que rolou com Jorge Mendonça na Copa de 1978. O treinador Cláudio Coutinha justificou essa enrolação pelo fato de que Mendonça iria substituir ninguém menos que Zico. O jogo contra a Espanha terminou em 0×0 mesmo. Além desse papelão, Jorge ainda groselhou pois daí para frente atuou em todas as partidas, deixando Zico no banco. Jorge, meu filho, aprenda uma coisa: ninguém deixa Zico no banco, seu groselha!

3- Edevaldo

Edevaldo

Lateral direito reserva de Leandro na Copa de 1982, o cara tinha o apelido de Edevaldo Cavalo, Pois então, naquele escrete lindo da Copa da Espanha, Edevaldo é o menos lembrado de todos os nomes. Só groselha!

4- Bismarck

Bismarck

Talvez esse seja o groselha mor. Seu futebol nunca convenceu de fato. Teve lampejos de criatividade no Vasco que garantiram sua convocação para a Copa do Mundo de 1990 – só a pior seleção da história do Brasil, competindo em pé de igualdade com a de 1974. Ele ainda cometeu a groselha de tirar o Neto que estava comendo a bola no Corinthians, levando o time paulista ao primeiro título nacional de sua história, da Copa do Mundo.

5- Denílson

Denílson

Esse tem o poder de ser a própria encarnação da groselha. Sobra gracejo, falta objetividade. Sua nova versão seria o Robinho. Ele jogou até no Itumbiara, veja você… Que groselha!

6- Raí

Raí

Foi titular da Seleção durante toda pré-temporada e perdeu a vaga durante a Copa do Mundo. É a prova cabal que jogador galã é groselha. No mundo de hoje, seria o Kaká… Veja que groselha!

7- Kléberson

Kléberson

O meio de campo mais inexpressivo da Copa do Mundo de 2002. Ganhou a vaga no time titular ao longo da competição e acabou erguendo a taça. Até hoje ninguém entendeu essa groselha do Felipão…

8- Paulo Sérgio

Paulo Sérgio

Foi para a Copa do Mundo de 1994. E não fez nada mais que isso. O mais groselha da história.

9- Doriva

Doriva

Foi reserva do Dunga na Copa de 1998. Foram 14 jogos convocados, nenhum gol e não fez mais nada. Meu Deus, quanta groselha!

10- Ricardinho

Ricardinho

Teve o auge do seu futebol no Corinthians, mas sempre groselhou na Seleção. Foi para a Copa do Mundo de 2002 e não provou sua bola. Mais uma promessa que groselhou pesado.

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Qual o limite da classe média?

Escrevi esse texto em 2005. Agora, vendo a pancadaria rolando solta na Grécia e meu orgulho por esse tipo de ativismo mais brutal, me lembrei da vergonha que sinto daquelas caminhadas pela paz tipicamente Zona Sul carioca. Aí, me lembrei (vejam só vocês, minha memória ainda aparece de vez em quando!) que já havia publicado algo nesse sentido. Fucei no computador e achei. Saca aí o que eu disse há seis anos:

Isso é um protesto de verdade, como os gregos fazem

Qual o limite da classe média?

Pablo Kossa

Tenho uma tendência natural ao cartesianismo. No sentido pejorativo do termo, sem querer ofender Descartes. Gosto de tudo certo, reto, determinado, planejado, controlado, dentro de parâmetros. Ok, sei que não tenho aparência de quem tem esse tipo de comportamento, mas os que me conhecem sabem que é verdade. É, amigo, o velho quem vê cara não vê coração ainda faz algum sentido! Tem gente que diz que é positivo ser organizado a este ponto. Outros já dizem que é uma patologia, conhecida como transtorno obsessivo compulsivo, mais chamada de TOC. Aquela doença do personagem do Jack Nicholson em Melhor é Impossível. Talvez o colega Marcelo Caixeta possa esclarecer esse ponto em um artigo futuro. Mas o ponto é o seguinte: por conta dessa característica, sempre procurei encontrar um limite para tudo à minha volta. O quanto meu fígado agüenta de cerveja. Até onde vai a Avenida Independência. Até quando meus parcos leitores suportam citações sobre os Rolling Stones. Enfim, sempre quis saber o limite de tudo.

O meu maior esforço ao longo da vida foi encontrar o limite da estupidez humana. Muitas vezes pensei que tivesse achado. Pensei que tivesse encontrado quando vi a comoção popular em torno da gravidez da Xuxa. Estava errado. Pensei que tivesse encontrado quando a Globo colocou no ar No Limite e aquilo conseguia uma audiência espantosa. Estava errado. Pensei que tivesse achado quando vi que as pessoas gostavam mesmo de bandas choronas que cantam olhando para o chão. Novamente, estava errado.

Percebi que o problema do mundo está na classe média. Mediocridade média, mais uma vez digo, com o dissabor da redundância. Então, foquei a observação no limite da estupidez da classe média. Triste conclusão: este não existe. É inalcançável. Inimaginável. Com um enorme poder surpreendedor. Mais embasbacante que alguns roteiros dos Simpsons.

Há alguns dias, vi alguns adolescentes uniformizados dando um abraço simbólico, fazendo uma manifestação, um protesto, ou qualquer coisa que valha, em volta da Igreja Nossa Senhora de Fátima, na Praça do Avião. Parece que iam até a porta do Colégio Agostiniano. Passei de carro e não deu para ver. Pouco importa. O que menos interessa é o que faziam e o que queriam. O que importa é que, independente do objetivo daquele ato (que seja pela paz no Oriente Médio ou pela redução do preço da coxinha na cantina do colégio), ele é completamente inócuo. Vai ter tanta serventia quanto mudar o técnico do Flamengo para tentar consertar aquele time. Não vai adiantar nada.
A raiz do problema está muito longe de uma união forçada, um grito conjunto de basta. Caso só isso fosse necessário, não existiriam mais revezes no mundo.

Se aquele fosse um protesto contra a violência, tenho certeza de que não questionava a vergonhosa distribuição de renda no País, foco central do problema.

Se aquele fosse um protesto pela paz no Oriente Médio, não questiona a presença ignóbil de Israel em terras palestinas.

Se aquele fosse um protesto contra os preços dos salgados da cantina, não questionava o absurdo que é oferecer aquele tipo de alimento, gorduroso e pouco nutritivo, para jovens e crianças.

E assim por diante!

E lá vai a classe média me surpreendendo todos os dias. Toda de branco na avenida e gritando por paz no Rio de Janeiro, enquanto compra um baseado e algumas carreiras de cocaína para passar o final de semana.

Deus, oh Deus, onde você colocou esse tão desejado limite para a estupidez da classe média??? Onde???

pablokossa@bol.com.br

E isso é um protesto classe média, totalmente coxinha

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Só gosta de frio quem nunca morou no frio

Sempre morei em Goiânia. O máximo de tempo que fiquei fora da cidade foi no início de 1997, quando a Escola Técnica Federal de Goiás entrou de greve e fui passar um mês no Recife com uma ex-namorada e eterna amiga. Então, nunca mantive rotina em temperaturas baixas. O maior frio que peguei na vida foi zero graus celsius, em Buenos Aires, no auge do inverno. Fiquei lá cinco dias. O que quero dizer com tudo isso é que não tenho muita experiência com o frio.

Mas respeito muito quem teve e acho que um dos grandes sinais de inteligência do ser humano é aprender com o exemplo alheio. Meu avô materno é de Ijuí, no Rio Grande do Sul. Minha mãe, junto dos meus avós e três tios, passou a infância e a adolescência no Paraná, em Castro e Curitiba, mais especificamente. E todos são unânimes em afirmar: não trocam a rotina de calor de Goiás pela rotina no frio da região Sul do País nem sob tortura.

A real é que a maioria das pessoas que dizem que gosta do frio nunca encararou rotina de frio de fato para trabalho. Uma coisa é você estar de férias no frio, acordando a hora que o sono acabar e entornando três garrafas de vinho por dia, como fiz em Buenos Aires. Outra bem diferente é ter que estar no trampo às 7h30, depois de ir na padaria, passear com o cachorro, deixar menino na escola e lavar as louças que ficaram na pia do dia anterior. Vamos deixar de frescura e falar sem amarras: ser obrigado a fazer isso no frio é um saco. Só de imaginar de molhar a mão para lavar aquela panela que foi usada para fritar bife me dá dor nos ossos.

Você já morou no frio? Conta aí como era essa rotina e me prove que é melhor do que acordar no calor!

Outra coisa que sempre penso é em quem não tem a condição de ter uma casa quentinha e fechadinha. Toda vez que chove ou faz frio, logo já penso em quem mora na rua ou nas áreas de risco da cidade. Não consigo esquecer que o calor é muito mais confortável para essas pessoas do que o clima gelado ou com água na cabeça.

Por essas e outras que, se for para mudar de Goiânia, o projeto Paraíba entrará em ação mole, mole…

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